quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Chenjerai Hove

















Zimbabwe, 9 de Fevereiro, 1956. Outros dados biográficos

ESPOSA DE GUERRA E DE GARRA

Esta guerra!
Estou cansada
de um marido que nunca dorme
a guardar a casa sempre a ser chamado,
nunca dorme!

Talvez diga para si
“estou cansado de uma mulher
que nunca morre
para eu poder deixar de estar em guarda”.

© 1982, Chenjerai Hove
In Up In Arms
Edição: Zimbabwe Publishing House, Harare, 1982
Trad.: Isaac Pereira

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Joseph Brodsky




















Joseph Brodsky. Poeta russo, natural de Leninegrado, actual S. Petersburgo a 24 de Maio de 1940. Faleceu em Nova Iorque, a 28 de Janeiro de 1996. Prémio Nobel da Literatura em 1987. Escreveu em língua russo e, mais tarde, em língua inglesa. Em 1964 foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados pelo estado soviético. Exilou-se nos EUA, naturalizou-se cidadão americano em 1977.

PARA A MINHA FILHA

Dai-me outra vida e estarei no Caffè Rafaella
a cantar. Ou estarei sentado a uma mesa,
simplesmente. Ou de pé, como um móvel no corredor,
caso essa vida seja menos generosa que a anterior.

Contudo, em parte porque nenhum século daqui em diante
conseguirá passar sem jazz nem cafeína, aguentarei esse desplante,
e pelas minhas rachas e poros, verniz e todo de pó coberto,
observarei, daqui a vinte anos, como a tua flor se terá aberto.

De um modo geral, lembra-te de que estou por ali. Ou melhor, que
um objecto inanimado pode ser o teu pai, sobretudo se
os objectos forem mais velhos do que tu, ou maiores. Não
os percas de vista, pois, sem dúvida, te julgarão.

Seja como for, ama essas coisas, haja ou não encontro.
Além disso, pode ser que ainda te lembres duma silhueta, dum contorno,
ao passo que eu até isso perderei, juntamente com a restante bagagem.
Daí estes versos, algo toscos, na nossa comum linguagem.

Joseph Brodsky

in So Forth (1984)

Antologia: Paisagem com Inundação, edição bilingue, Cotovia, Lisboa, 2001
Trad.: Carlos Leite

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Buland Al-Haydari

Uma pequena partícula de um grão de areia no imenso respeito que o cidadão livre deve ao grande povo do Iraque:

Buland Al-Haydari. Iraque (1926-1996)










O CARTEIRO

Que queres tu carteiro?
estou longe do mundo
sem dúvida estás equivocado...
já que nada de novo há
que o mundo possa trazer a este fugitivo.
O que era
é ainda o que é costume.
Sonhar
ou enterrar
ou evocar
enquanto a gente tem ainda seus festejos
e seus funerais juntando festa com festa
seus olhos desenterrados em suas mentes
outro osso para uma nova fome.
A China ainda tem a sua muralha
um mito apagado e um destino em repetição
a Terra tem ainda tem o seu Sísifo
e uma pedra que não sabe o que quer.

Carteiro
sem dúvida estás equivocado...
já que nada é novidade
volta à estrada
já que a estrada tanta vezes te trouxe.
E que queremos nós?

Trad.: Adalberto Alves

domingo, 25 de fevereiro de 2007

César Vallejo




Um Poeta do Peru. Um Poeta do Mundo.

César Abraham Vallejo Mendoza
Santiago de Chuco, uma aldeia dos Andes em 16 de Março de 1892
Paris, 15 de Abril de 1938




PEDRA NEGRA SOBRE PEDRA BRANCA

Morrerei em Paris num dia de chuva,
um dia do qual já me recordo.
Morrerei em Paris - e não me incomoda -
talvez numa quinta-feira, como hoje, de Outono.

Quinta-feira será, porque hoje, quinta-feira, dia em que escrevo
estes versos, já coloquei os meus ombros
na mala e, nunca como hoje, me voltei,
em todo o meu caminho, a ver-me só.

César Vallejo morreu, todos pegavam nele
sem que ele lhes faça nada;
batiam-lhe forte com um pau duro
e também com uma corda; são testemunhas
os dias de quinta-feira, os ossos dos ombros,
a solidão, a chuva, os caminhos...

César Vallejo
Trad.: Isaac Pereira

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Stanley Kunitz


















Stanley Kunitz. Poeta americano, Worcester, Massachusetts
29 de Julho, 1905 – 14 de Maio, 2006


UMA VELHA E DESAFINADA CANÇÃO

Chamo-me Solomon Levi,
o deserto é a minha casa,
o peito da minha mãe picava,
e não tive pai.

As areias murmuravam, Separem-se,
e as pedras ensinaram-me, Sê duro.
Danço,pela alegria de sobreviver,
na berma da estrada.

Stanley Kunitz

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

José Afonso













Aveiro, 2 de Agosto, 1929 - Setúbal,23 de Fevereiro, 1987


QUE AMOR NÃO ME ENGANA

Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se da antiga chama
Mal vive a amargura

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia?

E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais de ouve o seu grito

Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
Pelo nascer do dia

José Afonso

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Nicanor Parra
















Poeta chileno.Nicanor Parra: O "antipoeta"

San Fabián de Alico, 5 de Setembro 1914


OS VICIOS DO MUNDO MODERNO

Os delinquentes modernos
Estão autorizados a deslocar-se diariamente
a parques e jardins.
Dotados de poderosos binóculos e de relógios de bolso
Entram a saque nos quiosques favorecidos pela morte
E instalam os seus laboratórios nos roseirais em flor.

Dali controlam os fotógrafos e os mendigos que deambulam pelas redondezas
Procurando erigir um pequeno templo à miséria
E se têm oportunidade chegam a possuir um engraxador melancólico.
A policia atemorizada foge destes monstros
Em direcção ao centro da cidade
De onde deflagram os grandes incêndios de fim de ano
E um valente encapuzado coloca as mãos para cima a duas freiras da caridade.

Os vícios do mundo moderno:
O automóvel e o cinema,
As discriminações raciais,
O exterminio dos índios,
Os truques da alta finança,
A catástrofe dos velhos,
O comércio clandestino de brancas realizado por sodomitas internacionais,
A auto-promoção e a gula
As Pompas Fúnebres
Os amigos pessoais de sua excelência
A elevação do folclore a categoria do espírito,
O abuso dos estupefacientes e da filosofia,
A suavização dos homens favorecidos pela fortuna
O auto-erotismo e a crueldade sexual
A elevação do onírico e do subconsciente em detrimento do senso comum.
A confiança exagerada em sonhos e vacinas,
O endeusamento do falo,
A política internacional de pernas abertas patrocinada pela imprensa reacionária,
A ânsia desmedida de poder e de lucro,
A carreira do ouro,
A fatídica dança dos dólares,
A especulação e o aborto,
A destruição dos ídolos.
O desenvolvimentos excessivo da dietética da psicología pedagógica,
O vício da dança, do cigarro, dos jogos de azar,
As gotas de sangue que costumam encontrar-se entre os lençóis dos recém-casados,
A loucura do mar,
A agorafobia e a claustrofobia,
A desintegração do átomo,
O humor sangrento da teoria da relatividade,
O delírio de voltar ao ventre materno,
O culto do exótico,
Os acidentes aéreos,
As incinerações,as lutas em massa, a retenção dos passaportes,
Tudo isto porque sim,
Porque produz vertigem,
A interpretação dos sonhos,
E a difusão da radiomania.

Como fica demonstrado, o mundo moderno é composto por flores artificiais
Que se cultivam nuns vasos parecidos com a morte,
É formado por estrelas de cinema,
E de sangrentos boxistas que combatem à luz da lua,
Compõe-se de homens-rouxinol que controlam a vida económica dos países,
Por meio de alguns mecanismos fáceis de explicar,
Geralmente vestem de negro como os precursores do outono
E alimentam-se de raízes e de ervas silvestres.
Entretanto os sábios, comidos pelas ratazanas,
Apodrecem nos sótãos das catedrais,
E as almas nobres são perseguidas implacavelmente pela policia

O mundo moderno é uma grande cloaca,
Os restaurantes de luxo estão apinhados de cadáveres digestivos
E de pássaros que voam perigosamente baixo.
E não é tudo: Os hospitais estão cheios de impostores,
Sem referir os herdeiros do espírito que estabelecem as suas colónias
no ânus dos recém-operados.

Às vezes os industriais modernos sofrem o efeito da atmosfera envenenada,
Junto ás máquinas de tecer costumam ficar doentes por causa da terrível doença do sonho,
Que por vezes os transforma numa espécie de anjos.
Negam a existência do mundo físico,
E vangloriam-se de ser uns pobres filhos do sepulcro.
Contudo o mundo sempre foi assim.
A verdade, como a beleza, não se cria nem se perde.
E a poesia reside nas coisas ou é simplesmente uma miragem do espírito.
Reconheço que um terramoto bem concebido
Pode acabar em alguns segundos coom uma cidade rica em tradições
E que um minucioso bombardeamneto aéreo
Derruba árvores, cavalos, tronos, música.
Mas que interessa tudo isto
Se enquanto a maior bailarina do mundo
Morre pobre e abandonada numa pequena aldeia do sul de França
A primavera devolve ao homem uma grande parte das flores desaparecidas.

Tratemos de ser felizes, recomendo, chupando a miserável costela humana.
Extraiamos dela o líquido renovador,
Cada um de acordo com as suas inclinacões pessoais.
Agarremo-nos a esta lástima divina!
Pintores e estremecidos
Chupemos estes lábios que nos enlouquecem;
A sorte foi encontrada.
Respiremos este perfume enervador e destruidor
E vivamos um dia mais a vida dos eleitos:
Das suas axilas extrai o homem a cera necessária
para forjar o rosto dos seus ídolos.
E do sexo da mulher a palha e o barro dos seus templos.
Por tudo isto
Crio um piolho na minha gravata
E sorrio aos imbecis que descem das árvores.

Nicanor Parra
De Poemas e antipoemas (Santiago, Nascimento,1954)