quarta-feira, 7 de março de 2007

Pablo Neruda

Depois de Nicanor Parra, o regresso ao Chile. Lugar de privilégio na poesia hispano-americana. Pablo Neruda, Prémio Nobel da Literatura em 1971.








Pablo Neruda. 12 de Julho, 1904 – 23 de Setembro de 1973. Nome literário de Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto.

SENSAÇÃO DE AROMA

Fragrância
de lilás...

Claros entardeceres da minha remota infância
que fluiu como o curso de umas águas tranquilas.

E depois um lenço agitado à distância.
Sob o céu de seda a estrela que cintila.

Nada mais.Pés cansados em grandes errâncias
e uma dor, uma dor que morde de novo e se afia.

...E nos campanários distantes, canções, penas, ânsias,
virgens que possuíam pupilas tão doces.

Fragrância
de lilás...

Pablo Neruda
Trad.: Isaac Pereira

terça-feira, 6 de março de 2007

Pierre Kemp


















Pierre Kemp
1 Decembbro 1886, Maastricht - 21 Julho 1967, Maastricht, Holanda.

SONHOS

Certas noites sigo uma luz amarela
Até uma porta azul onde se lê: Sonho.
A porta não é aberta por minha mão
Nem sou convidado por uma mulher
Para comprar sonhos, e mesmo assim
sempre eles foram pagos por mim.
À noite não fiquei nada a dever.

Pierre Kemp
(1886-1967)

Tradução: Fernando Venâncio

segunda-feira, 5 de março de 2007

Reinaldo Perez Só

TRÊS POEMAS DE REINALDO PEREZ SÓ

I

O quarto
está
vazio
de algo que busco
avô
como tu


II

esta é uma cadeira
só uma cadeira
nela
sentou-se meu pai
meus irmãos
todos
os meus melhores amigos
agora
está sozinha
sem ninguém
uma cadeira

III

Nós que sonhamos
sentimos o sonho mais bonito
morremos cedo
porque não somos sonhos
nem pássaros
e o ar pesa-nos
apesar de tudo
voltamos em cada noite
para morrermos de outro sonho

Reinaldo Perez Só (Venezuela)
Do livro: Para morrermos de outro sonho
Trad.: José Bento

domingo, 4 de março de 2007

Depois da chuva












Buraco-de-agulha. Uma Casa na Primavera.
© Isaac Pereira. 2006


Depois da chuva,
as árvores brotavam de um silêncio verde,
e os pássaros cantavam, escondidos em ninhos de pedra.
Havia uma luz débil, amarela, oblíqua, crepuscular,
uma luz que fazia compridos os dias, que engrandecia.
E, em meus pequenos jardins, um odor a hortênsias, a amores-perfeitos.

Naquele tempo, depois da chuva,
as núvens, como nós,
passeavam, brancas, sobre a cidade deserta.

Koi Hui-Sio

sábado, 3 de março de 2007

Yun Sondo








© Isaac Pereira. Langkawi.Malásia.2006

SENTADO SOZINHO

Sentado sozinho
com um copo na mão
contemplo
os montes distantes

Nem que chegasse
a amada
sentiria
prazer maior

Mesmo que não falem nem riam
gosto mais
das montanhas

Yun Sondo. Coreia.1587-1671
Trad.: Isaac Pereira
(a partir de tradução do português de Yun Jung Im e Alberto Marsicano)

sexta-feira, 2 de março de 2007

Aldous Huxley

Aldous Huxley (1894-1963)

Visão

Eu estava sentado, sozinho com livros,
Até a dúvida era uma doença negra,
Quando ouvi o grito alegre dos rebentos
Nas árvores despidas, proféticas.

Árvores despidas, profetas do novo nascimento,
Levantam as filiais limpas e livres
Para ser uma marca na terra,
Uma flama de cólera para que todos vejam.

E os rebentos nas filiais riem e gritam
Àqueles que podem se ouvir e compreender:
“Ande através dos caminho sombrios da dúvida
com a tocha da visão em sua mão."

Trad.: Isaac Pereira

quinta-feira, 1 de março de 2007

Ana Paula Inácio










Poeta portuguesa. Porto.1966.

QUERIA QUE ME ACOMPANHASSES

queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde as comboios estendem
silvos aflitos

© 2000, Ana Paula Inácio
In Vago Pressentimento Azul por Cima
Editora: Ilhas, Porto, 2000